Do portão ao setor: a acessibilidade do GP do Brasil sob o olhar de quem viveu


A percepção do público sobre acessibilidade no GP do Brasil 2025 revela um cenário complexo: avanços pontuais, muitos gargalos estruturais e um sentimento generalizado de falta de preparo. A análise de 97 respostas coletadas após o evento mostra que a experiência de pessoas com deficiência, mobilidade reduzida e acompanhantes ainda está longe do ideal, e impacta diretamente a vivência de quem frequenta o autódromo de Interlagos.

A maioria dos respondentes tem entre 25 e 34 anos (55,7%) e é formada majoritariamente por público geral (70,1%). Ainda assim, 16,5% se identificam como PCD, e outros 5,2% como pessoas com mobilidade reduzida. Ou seja, quase um quarto dos participantes do formulário pertence a grupos que dependem de acessibilidade mínima para ter uma experiência segura.

Mesmo assim, apenas 1% avaliou a acessibilidade geral como excelente, enquanto 11,3% classificaram como péssima e 22,7% como ruim. A nota mais comum foi “regular”, com 39,2%.

Acesso, filas e sinalização: os maiores pontos de atrito

Embora 60,8% tenham considerado a sinalização externa clara, os problemas começaram nos portões. 37,1% afirmam que o acesso não foi acessível ou organizado, e 43,3% dizem que apenas parcialmente.

Relatos mostram falta de filas preferenciais, equipes despreparadas, informações desencontradas e, principalmente, um desconhecimento preocupante sobre deficiências invisíveis. Muitas pessoas com laudos e necessidades específicas relatam ter sido desacreditadas ou tratadas com hostilidade por seguranças e staff.

A falta de orientação unificada agravou a confusão: visitantes foram enviados de um portão a outro repetidas vezes, algumas vezes sob chuva, outras com longas caminhadas que seriam inviáveis para quem tem mobilidade reduzida.

Locomoção interna e estrutura: rampas faltam, escadas sobram

Apenas 7,2% encontraram pisos táteis, rampas e caminhos acessíveis em todos os lugares.
Quase metade (49,5%) percebeu acessibilidade só em pontos isolados.
E 36,1% simplesmente não encontrou nenhum recurso acessível.

Escadas íngremes e desniveladas aparecem em quase todos os relatos, principalmente nos setores G e Fanzone. Também há queixas sobre o acesso aos banheiros, muitas vezes com degraus, rampas íngremes ou falta de cabines acessíveis.

Áreas PCD: espaço insuficiente e pouco controle

Embora 34% tenham notado área PCD bem sinalizada, outros 35,1% dizem que a sinalização era falha e 14,4% afirmam que não havia qualquer espaço dedicado.

Há queixas sobre áreas pequenas demais, mal posicionadas ou tomadas por acompanhantes sem deficiência, muitas vezes por falta de controle de acesso. Em alguns pontos, cadeirantes precisaram pedir que pessoas em pé saíssem da frente, sem apoio do staff.

Comunicação e informação: um déficit constante

Apenas 9,4% encontrou informações de acessibilidade antes ou durante o evento.
Metade dos respondentes afirma que não havia informação adequada.

Na parte comunicacional, a presença de intérprete de Libras foi notada por 63,9%, mas legendas, braille e outros formatos inclusivos praticamente não existiram.

Experiências práticas: quando a falta de acessibilidade vira risco

Os relatos individuais reforçam cada dado estatístico. Entre os principais problemas recorrentes:

  • fila preferencial inexistente ou ignorada

  • hostilidade e descrédito em relação a deficiências invisíveis

  • longas caminhadas sem orientação

  • banheiros com rampas íngremes, sem tranca ou acessibilidade

  • escadas como único caminho para setores inteiros

  • estrutura improvisada que prejudica pessoas com mobilidade reduzida

  • necessidade de intervenção policial para liberar entrada de PCDs

  • acessos distantes e sem apoio

  • staff desinformado e despreparado

  • fanzone com pouca visibilidade e quase nenhuma acessibilidade real

Vários participantes relatam crises, desgaste físico e emocional, humilhação e até abandono temporário por parte da organização.

Por outro lado, experiências positivas existem, especialmente no Setor Santander, onde houve transporte adaptado, equipe preparada e orientação clara, mostrando que acessibilidade é possível quando há planejamento.

O que o público pede para 2026

A lista de melhorias desejadas é extensa, mas algumas demandas se repetem com força:

  • treinamento da equipe, incluindo deficiências invisíveis

  • filas preferenciais reais, bem sinalizadas e respeitadas

  • mais rampas, menos escadas

  • caminhos internos acessíveis e pisos nivelados

  • comunicação clara sobre acessibilidade antes e durante o evento

  • controle na área PCD para evitar superlotação

  • banheiros acessíveis em quantidade suficiente

  • transporte adaptado eficiente

  • sinalização visual e sonora

  • informações consistentes entre todos os funcionários

  • ampliação e melhor posicionamento das áreas PCD

  • medidas de segurança para evitar empurra-empurra e filas desorganizadas

O diagnóstico geral é unânime: o GP do Brasil ainda não é um evento acessível. Há pontos funcionando, mas a experiência de quem depende de acessibilidade é marcada por insegurança, desinformação e cansaço, físico e emocional.


Pesquisa completa: https://portfolioluizasato.my.canva.site/acessibilidade-no-gp-do-brasil

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